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Uma pequena história dos 25 anos de Aikido na UnB

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Sobre graduações e licenças de ensino

O dia 30 de maio de 2014 representa um divisor de águas em nosso grupo. O prof. Nelson recebeu do sensei Phil Relnick, juntamente com o prof. Alberto Ferreira, Leonardo Rodrigues e Alexandre Miranda, a primeira graduação no Shinto Muso Ryu Jodo, denominada Oku-iri-sho. Além deles, Shikanai sensei foi promovido a Go-moku-roku e Gliber foi promovido a Sho-moku-roku. Antes da entrega dos certificados, sensei Phil fez uma longa explanação sobre o significado destas graduações na arte, buscando paralelos com o sistema de graduações das artes marciais japonesas modernas. O presente texto tentará fazer uma síntese desta explanação.


A graduação nas artes marciais japonesas modernas, ou Gendai Budô, é majoritariamente baseada no sistema dan-kyu. Este sistema foi desenvolvido por Jigoro Kano, fundador do Judo. Basicamente o aluno começa de uma graduação kyu, usando faixas coloridas ou não, indo até a faixa preta, onde ele atinge a graduação dan. Na arte marcial japonesa antiga, ou Koryu Budô, o sistema guarda algumas similaridades com o sistema moderno, mas é majoritariamente diferente. Em alguns dojos de Jodo, o sistema dan-kyu foi adotado no sentido de permitir que ocidentais que vinham treinar no Japão por um curto espaço de tempo pudessem voltar aos seus países com alguma certificação. As graduações no Shinto Muso Ryu Jodo são definidas na seguinte forma:


Oku-iri-sho: Certificado de Admissão. Segundo sensei Phil, este certificado representa um reconhecimento do comprometimento do aluno por parte do professor, aceitando-o como um membro integral da escola koryu;


Sho-moku-roku: Primeira certificação, atestando que o aluno aprendeu todo o currículo de katas concernentes a esta etapa;


Go-moku-roku: Certificação seguinte, atestando que o aluno aprendeu todo o currículo de katas concernentes a esta etapa;


Menkyo: Segundo Nobuko sensei, a palavra Menkyo significa licença, não diferente de uma carteira de habilitação. Seria uma certificação de proficiência mínima concedida pelo professor ao aluno;


Menkyo Kaiden: Licença de transmissão completa, onde o professor atesta que o aluno aprendeu o currículo completo da escola koryu.


Sensei Phil enfatizou em sua fala que estas graduações não são licenças de ensino. Estas licenças só podem ser dadas pelo professor, que mandatoriamente detém a última graduação. Esta definição de hierarquia dentro do koryu de quem ensina e quem aprende é algo inerente à cultura japonesa, e não se encontra escrito ou registrado em lugar algum. Esta hierarquia é aprendida no treino, onde a autoridade do professor é estabelecida e reconhecida pelos alunos. Os ocidentais que praticam artes marciais japonesas, modernas ou não, devem reconhecer que esta hierarquia rígida de ter apenas um professor no dojo é inerente à própria arte e à cultura japonesa. É desta forma que os japoneses preservam a pureza e o valor do koryu.


Nas artes marciais japonesas modernas, é possível observar traços desta hierarquia. Existem dojos onde o praticante só recebe permissão para ensinar ao conseguir o 5º Dan. Antes desta graduação, o praticante não pode sequer falar com os menos graduados, reservando a tarefa de ensino apenas para o professor. Tanto que no koryu, cada uma destas graduações carrega o simbolismo da hierarquia nos pergaminhos que as documentam. O Oku-iri-sho é dado dentro de um envelope, o Sho-moku-roku é dado em uma caixa de papelão, o Go-moku-roku é dado em uma caixa de madeira e tanto o Menkyo quanto o Menkyo Kaiden são dados respectivamente em caixas de metal. Este simbolismo mostra não apenas a importância destas graduações na arte, mas também a responsabilidade e comprometimento do praticante. Sensei Phil e Nobuko sensei ressaltaram também que o simples fato de um praticante ter o penúltimo título (Menkyo) não o torna um professor. Ora, a carteira de habilitação nos permite dirigir um carro, mas não nos permite sermos professores de auto-escola. Esta analogia se aplica perfeitamente às artes marciais japonesas antigas e modernas. No Aikido, o simples fato de um praticante ter alcançado o 1º Dan não o torna automaticamente um professor. Seu significado vem no sentido de afirmar que o praticante agora teve seus esforços reconhecidos e que chegou o momento do treinamento atingir uma nova etapa.


As artes marciais japonesas são um tesouro que nós praticantes, ocidentais ou orientais, devemos preservar. E esta atitude é ainda mais verdadeira com as artes koryu. Afinal de contas, nossos professores de Aikido e Jodo não nos ensinam a lutar. As técnicas que aprendemos são para que saibamos como nos portar em um contexto de luta, sem buscar as lutas como um fim em si mesmo. Em nossos dias de treino, não aprendemos técnicas para subjugar alguém ou infligir dor ou sofrimento, mas aprendemos um modo de viver. Sensei Phil sempre fala em suas aulas que, se o objetivo de alguém for machucar ou fazer outro sentir dor, então esta pessoa deve procurar treinar MMA. Tanto o Aikido e o Jodo não trazem este objetivo em seus treinamentos.


Muitas vezes os ocidentais esquecem-se deste senso de hierarquia e de responsabilidade. É até compreensível, visto que nossa cultura é diferente da cultura japonesa. Mas se treinamos artes marciais japonesas, valendo-nos de gestos japoneses (como ficar em seiza, curvar-se à foto de um mestre ou cumprimentar o parceiro de treino curvando-se e falando palavras de agradecimento em japonês) e usando roupas japonesas, então os praticantes destas artes devem observar o treinamento destas artes de acordo com a cultura e tradição japonesa: Obedecendo e respeitando à hierarquia do mais graduado, reconhecendo a responsabilidade inerente a cada graduação e compreendendo que o caminho marcial é de contínuo aperfeiçoamento, independente de sistema de graduação. Do contrário, todo o valor essencial ao Budô se perderá. Este texto é concluído com a tradução de uma fala do sensei Phil registrada em entrevista pelo periódico Aikido Journal: “Para os japoneses, eles devem proteger o que eles possuem, e de fato, as artes marciais são a base da história japonesa. Eles não devem entregá-las de graça. Elas são parte da sua cultura única. Não as diluam para as massas. Se o estudante não está satisfeito com as regras, então a porta da rua é serventia da casa”.

 

Brasília, 02/06/2014.

 

Bruno Couto Kummel
Luciano Gonçalves Noleto



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aizenkai.