Reflexões sobre Valores Humanos e Prática de Virtudes: Notas dos Nossos Mestres

 


Quando Shikanai Sensei, nos seus ensinamentos, coloca a questão da boa vontade, ela nos remete, como praticante de artes marciais, à questão da promoção da paz num mundo disruptivo que busca uma nova ordem no seu tecido social.


Os estudiosos na construção de uma visão de futuro, colocam valores que confrontam dicotomias como competição e solidariedade, liberalismo e autoritarismo, liberdade e controle, sociedades abertas e fechadas, multilateralismo e bilateralismo.


Eles observam a necessidade de viver segundo uma série de regras, padrões e a emergência de novas instituições para garantir certa harmonia entre os povos.


Permeando todos esses valores sociais, a construção e o fortalecimento de um tecido social universal parecem residir, na sua base, no desenvolvimento de valores humanos e sua prática.


Temas dos mais transversais na história da humanidade, e que vem aumentando de importância neste século, são a questão da evolução dos valores humanos e a prática das virtudes.


O pesquisador Michael Tomasello (The Origins of Morality Scientific American Set/2018) descreve que: há milhões de anos, os seres humanos enfrentam a necessidade de sobrevivência, inicialmente de forma individual e, tendendo para um viver coletivo ao longo do seu desenvolvimento como ser social.
Segundo o autor, a compreensão de que atuar em comunidade, onde o nós se torna mais relevante que o eu, começa a ocorrer em torno de 400.000 anos atrás, pois a sobrevivência em conjunto se torna primordial e fundamental.


Há 100.000 anos, começam a surgir comportamentos culturais que exigem certo comprometimento ético, do que é certo e errado, para que seja viável adequado nível de convivência.


As manifestações humanas, sejam elas de forma coletiva, nas ruas ou nas eleições, assim como de forma individual no cotidiano, parecem refletir a dificuldade do ser humano em adaptar-se ao mundo.


Neste mundo atual que experimenta aceleração num ritmo crescente e até alucinante, podem-se destacar a dinâmica tecnológica, a vulnerabilidade do trabalho, a desigualdade e o individualismo.


Cada vez se torna mais complexo trabalhar e viver em família, em comunidade ou em sociedade, num país onde a cultura se universaliza, o mundo se digitaliza e nos leva à realidade virtual e aumentada.


A isso se agregam as alterações provocadas pela inteligência artificial no viver cotidiano, o processamento de grande volume de dados que influenciam na segurança e na privacidade pessoal.


Quando o real e o virtual se confundem, quando nossos comportamentos influem fortemente em outros, o que nos mantém como seres humanos, como uma raça que habita este planeta Terra?


O questionamento sobre a superação das necessidades básicas de sobrevivência com o uso da tecnologia parece ter deixado um espaço vazio na formação de valores humanos, desde a concepção até a morte do ser humano.


Conforme Ray Kurzweil, novos desafios morais e éticos surgem com os conceitos de evolução humana do ser biológico para ser humano-tecnológico, este convivendo com sistemas evoluídos de computadores com inteligência superior aos humanos e tendendo a espiritual; a bioengenharia alterando a idade, a inteligência e o corpo; a nanotecnologia invadindo o dia a dia das pessoas, comunidades, empresas e máquinas.


Valores humanos que também se tornam complexos e necessitam ser renovados e desenvolvidos em escala exponencial, especialmente aqueles destinados à convivência entre os seres e ao aprofundamento do conhecimento interior.


Questiona-se como se comportam ou deveriam se comportar as nações que enfrentam crises, as populações que se deslocam, que buscam um espaço cada vez mais ocupado por outras populações que igualmente enfrentam as questões de emprego e desigualdade.


O que o ser humano, em qualquer posição na sociedade, pensa para agir com solidariedade, humanidade, compaixão, ética, citando alguns valores fundamentais?


Como fazer parte da formação do ser humano a construção interior de valores que não existem num curriculum escolar ou para que o jovem entre no mercado de trabalho, onde seu comportamento influencia a todos neste mundo globalizado?


Do pouco que se conhece dos últimos 10.000 anos, civilizações e impérios surgem e desaparecem, assim como ocorrerem com as nações de hoje.


Sejam os 10 mandamentos que buscam um viver em sociedade, assim como os contrapontos a tempos de violência, guerras, doenças e pragas, o comportamento humano enfrenta desafios para o desenvolvimento do ser para o viver.


A luta pela paz, pela redução das desigualdades e da pobreza e, pela melhora do bem-estar, sempre fizeram parte do currículo e do discurso dos dirigentes públicos e privados, das religiões e dos homens de bem.


Assim como a formação do caráter humano daqueles que escolheram participar do extrato da sociedade para enfrentar crises, haveria a necessidade de formar todos da sociedade a se aprimorarem para participar da construção e manutenção permanente da paz e do bem viver na terra.


Entre as diversas aptidões necessárias para o exercício diário da paz, o desenvolvimento de uma estratégia, ações e planejamentos deveriam ser edificados para que todos possam usufruir do que existe no planeta.


Essa nova formação de caráter do ser humano, voltado para a cultura de valores humanos e a prática das virtudes seria a primeira e a maior das prioridades das sociedades a que todos fazemos parte, independente do local e das condições de vida.


Expandir nossos talentos e capacidades para exercer nossa disposição de cuidar, como disse o Lama Tartang Tulku (em Skillful Means, 1978), para compreender a natureza da nossa responsabilidade como seres humanos, pois a ação irresponsável e autocentrada produz sempre conflitos sociais, desastres ecológicos, indicando uma falha em assumir responsabilidade autêntica.


Felizmente a ciência também começa a investigar o ensino de valores humanos, como a do pesquisador neurocientista Dr. Richard Davidson que observa que: o que torna um cérebro saudável é a bondade, aumentando sua inteligência. E que a bondade pode ser ensinada a qualquer pessoa, em qualquer idade.


Talvez essa seria a chave para acelerar a formação de todos, permitindo que em qualquer lugar e tempo, valores como a compaixão, honestidade, solidariedade e respeito sejam continuamente aperfeiçoados e praticados.


Introduzir esses valores humanos nos ensinamentos e nas práticas do Aikido e Jodo talvez faça parte de nossa contribuição para o viver em paz e transmitir esses patrimônios da humanidade para que nós praticantes possamos exercer essas virtudes.


Podemos partir de coisas simples, como o respeito aos colegas e professores, a limpeza externa e interna, a humildade e bondade nos treinos, gostar de ensinar e ser ensinado, comprometimento e dedicação aos treinos, o aprimoramento das formas e a generosidade no coração.

 

Brasilia, abril de 2019.

Nelson Takayanagi - Aizenkai.

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aizenkai.